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Se a Apple tem uma tradição não escrita, é a do "Refinamento". Aconteceu com o Leopard, que foi polido pelo Snow Leopard; aconteceu com o Lion, aperfeiçoado pelo Mountain Lion. E, em 25 de setembro de 2017, a história se repetiu com o lançamento do macOS High Sierra (versão 10.13).

Vindo na esteira do macOS Sierra, o High Sierra não chegou para mudar a cara do Mac. Visualmente, eles eram quase idênticos. O objetivo era outro, muito mais ambicioso: trocar o motor do carro com ele em movimento.

Para usuários de Macs mais antigos — o foco principal do nosso canal —, o High Sierra é um marco. Ele foi o responsável por introduzir tecnologias que usamos até hoje, como o sistema de arquivos APFS e o suporte a vídeos HEVC, garantindo uma sobrevida impressionante para máquinas de 2010, 2011 e 2012.

Neste artigo, vamos mergulhar fundo no que fez deste sistema um dos mais importantes tecnicamente da última década.

A Grande Mudança: Apple File System (APFS)

A novidade mais radical do High Sierra não era algo que você podia "ver", mas sim onde seus dados viviam. Por mais de 30 anos, os Macs usaram o sistema de arquivos HFS+ (Hierarchical File System Plus). Embora robusto, o HFS+ foi criado na era dos disquetes e discos rígidos mecânicos lentos.

O High Sierra introduziu o APFS (Apple File System) como padrão para todos os Macs com armazenamento Flash (SSDs).

Por que isso foi revolucionário?

  1. Velocidade Instantânea: O APFS mudou a forma como o Mac calcula o espaço. Antes, duplicar uma pasta de 4GB demorava minutos. Com o APFS, é instantâneo. O sistema não "copia" os dados bit a bit; ele apenas cria uma nova referência para os mesmos dados, economizando espaço e tempo.

  2. Snapshots (Retratos): Essa tecnologia permitiu backups do Time Machine muito mais eficientes e recuperações de sistema mais seguras. Se uma atualização falhasse, o APFS permitia "voltar no tempo" para o estado exato do disco antes do erro.

  3. Otimização para SSD: O APFS foi desenhado nativamente para memórias de estado sólido, reduzindo a latência e aumentando a vida útil do disco.

Nota para Upgrades: Para quem coloca um SSD em um MacBook Pro antigo (2012, por exemplo), instalar o High Sierra é o momento em que a máquina "voa", pois o sistema finalmente fala a língua do hardware moderno.

Multimídia: HEVC e a Era do 4K

Com a popularização das telas Retina e vídeos em 4K no iPhone, o Mac precisava lidar com arquivos gigantescos. O High Sierra trouxe o suporte nativo ao HEVC (High Efficiency Video Coding), também conhecido como H.265.

O H.264 (padrão anterior) era bom, mas gerava arquivos muito pesados. O HEVC comprime o vídeo em até 40% a mais sem perder um pixel de qualidade.

Isso permitiu que Macs mais antigos conseguissem reproduzir e editar vídeos em 4K que, anteriormente, fariam a ventoinha parecer uma turbina de avião ou travariam o VLC. Para criadores de conteúdo e editores de vídeo, essa atualização de software valeu por um upgrade de hardware.

Metal 2: Potência Gráfica e Realidade Virtual

O High Sierra também trouxe o Metal 2, a nova geração da API gráfica da Apple. A promessa era tirar o peso do processador principal (CPU) e jogar tarefas visuais pesadas direto para a placa de vídeo (GPU).

O Metal 2 foi tão eficiente que permitiu, pela primeira vez, o suporte oficial a Realidade Virtual (VR) no Mac, com parcerias com a SteamVR e HTC Vive. Além disso, foi nessa versão que a Apple começou a suportar oficialmente as eGPUs (Placas de Vídeo Externas) via Thunderbolt 3, permitindo que um MacBook fino tivesse o poder gráfico de um desktop para renderização 3D.

Refinamentos nos Apps Nativos

Embora o foco fosse "debaixo do capô", os aplicativos do dia a dia receberam carinhos importantes:

  • Fotos: Ganhou uma barra lateral persistente (finalmente!) e ferramentas de edição avançadas, como Curvas e Cor Seletiva, aproximando-o um pouco mais de softwares profissionais como o Lightroom.

  • Safari: Introduziu o "Intelligent Tracking Prevention" (Prevenção Inteligente de Rastreamento), que usava aprendizado de máquina para impedir que sites de publicidade seguissem você pela internet. Também trouxe o recurso amado de bloquear automaticamente a reprodução de vídeos com som em sites.

  • Mail: A busca ficou muito mais rápida (graças ao APFS) e o app passou a usar 35% menos espaço em disco para armazenar suas mensagens.

Compatibilidade: O "Salvador" dos Macs Antigos

Um dos pontos mais elogiados do High Sierra foi a sua generosidade. Ele manteve a compatibilidade com exatamente a mesma lista de Macs que rodavam o seu antecessor, o Sierra. Ninguém foi deixado para trás.

A lista oficial incluía guerreiros que ainda hoje são muito usados:

  • MacBook Pro: Meados de 2010 ou posterior.

  • MacBook Air: Final de 2010 ou posterior.

  • Mac mini: Meados de 2010 ou posterior.

  • iMac: Final de 2009 ou posterior.

Isso solidificou a reputação da Apple de longevidade. Imagine um computador de 2009 (iMac) recebendo um sistema operacional de ponta em 2017/2018.

O Lado Sombrio: O Bug do "Root"

Nem tudo foram flores. O High Sierra ficou infame por um dos bugs de segurança mais bizarros da história da Apple.

Logo após o lançamento, descobriu-se que qualquer pessoa poderia desbloquear as Preferências do Sistema ou até mesmo fazer login na tela inicial digitando o usuário "root" e deixando o campo de senha em branco. Bastava clicar em "Desbloquear" várias vezes e o sistema deixava entrar com privilégios de administrador total.

A Apple corrigiu a falha em menos de 24 horas com uma atualização de segurança emergencial e um pedido público de desculpas, mas o episódio manchou brevemente a reputação de "impenetrável" do macOS.

Conclusão: Um Legado de Estabilidade

Olhando em retrospectiva, o macOS High Sierra envelheceu como vinho. Para muitos técnicos e entusiastas, ele é considerado o "Windows XP" ou "Windows 7" do mundo Mac: uma versão extremamente estável, leve e compatível.

Ele marca a fronteira final para muitos softwares de 32 bits e hardwares antigos (como as placas gráficas Nvidia, que perderam suporte no Mojave).

Se você tem um Mac de 2010 ou 2011 guardado na gaveta, o High Sierra é provavelmente a melhor versão oficial que ele pode rodar. Ele não trouxe confetes ou fogos de artifício visuais, mas construiu a fundação sólida (APFS, Metal, HEVC) sobre a qual todo o ecossistema Apple moderno foi erguido.